Acumular um milhão de milhas ou um milhão de reais? Entenda por que o melhor programa de fidelidade do mundo é o seu programa de independência financeira

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No último post, vimos o conceito de milhas aéreas, e aprendemos que a milha nada mais do que uma moeda de troca, que se assemelha bastante ao dinheiro, no sentido de que as milhas que você acumula em seu programa de fidelidade podem “comprar” passagens aéreas e outros produtos e serviços.

Já que as milhas e pontos são uma espécie de moeda de troca, e tendo em vista a existência de diversos meios de acumulação (voos, cartões de crédito, e até compra direta de pontos por meio do próprio site da cia. aérea, ou pagamento de contas), surge a inevitável pergunta:

É melhor acumular um milhão de milhas ou um milhão de reais?

E é justamente aqui que entra o nosso conhecimento e know-how de educação financeira, para provar que essa pergunta tem uma resposta que nem sequer é passível de maiores questionamentos: é indubitável que é muito melhor acumular um milhão de reais.

As milhas se assemelham ao dinheiro exatamente pelo fato de, assim como o dinheiro, poderem “comprar” passagens aéreas. Mas as semelhanças praticamente acabam por aí. As vantagens de se acumular dinheiro, através de um bem orientado programa de independência financeira, são tantas, que sequer é cabível qualquer discussão mais aprofundada a respeito.

O quadro abaixo apresenta um breve comparativo entre as milhas e o dinheiro, onde o placar é programa de milhagem 0 x 9 programa de independência financeira:

Comparação milhas x dinheiro

Vamos comentar cada um desses aspectos.

1. Nível de aceitação. As vantagens de se acumular dinheiro, ao invés de milhas, começam pelo nível de aceitação de cada uma delas. Se você decidir acumular pontos no Multiplus Fidelidade, da TAM, só poderá utilizá-los para “comprar” passagens para voar na própria TAM, ou, no máximo, nas cias. aéreas da rede ao qual ela pertence (One World), ou uma de suas parceiras. Você não poderá utilizá-las para viajar na Gol, United, Azul etc. O dinheiro, por outro lado, não conhece limitações, uma vez que, sendo uma moeda de aceitação universal, você poderá utilizá-lo para viajar em qualquer empresa aérea existente no mundo, em qualquer dia, e em qualquer horário, ainda que a empresa aérea não tenha programa de fidelidade algum.

2. Prazo de validade. Um dos problemas em quem se torna um “viciado” em milhas é que, muitas vezes, você acaba acumulando mais do que efetivamente gastando. O resultado é que você acaba ficando com um saldo de milhas que, se não utilizados dentro de um certo período, acabam prescrevendo, e sumindo da conta pelo não uso. O dinheiro, ao contrário, é imprescritível: não perde validade caso não seja gasto. Muito pelo contrário: utilizando-se os investimentos certos, ele se multiplica com o decorrer do tempo, através dos efeitos dos juros compostos. Warren Buffett disse certa vez que cada dólar que ele deixava de gastar no presente se transformavam em 9 dólares no futuro (obs.: existem alguns raros programas de milhagem cujas milhas não prescrevem (p.ex., Delta SkyMiles; e United Mileage Plus e AAdvantage, caso haja uma movimentação na conta a cada 18 meses), mas a regra continua sendo a prescritibilidade das milhas após certo período de inatividade da conta).

3. Amplitude da utilização. As milhas e pontos têm um valor de utilização muito restrito: só servem para comprar passagens aéreas ou diárias de hotéis (no caso de programas de fidelidade de redes hoteleiras). É certo que muitos programas permitem a troca por produtos e serviços (quem aqui já está de saco cheio de receber email de propaganda da Multiplus sugerindo você trocar pontos por aparelhos celular levanta a mão 😛 ). Porém, essas trocas são muito desvantajosas, dado o valor dos produtos quando comparados com o valor dos pontos necessários para adquiri-los. Já o dinheiro tem uma utilização universal: ele compra/paga qualquer coisa de valor econômico: apartamentos, frutas e verduras, roupas, telefone, conta de luz etc.

4. Valorização em função do tempo. Uma das regras de ouro das milhas aéreas é dada pelo Rodrigo Purisch: “milha boa é milha gasta, o mais rápido possível. Não considere sua conta de fidelidade como um depósito a longo prazo”. As milhas são moedas governadas por regras impostas pelas empresas comerciais, e, em 100% dos casos, houve desvalorização do resgate de pontos com o decorrer do tempo. Se antes uma empresa aérea cobrava 20 mil pontos para resgatar um voo “x”, hoje ela cobra 50 mil pontos; se antes cobrava 25 mil pontos, hoje cobra 70 mil pontos, e assim por diante. As milhas se desvalorizam com o decorrer do tempo. Com o dinheiro ocorre o efeito exatamente oposto: dados os efeitos dos juros compostos, há uma nítida tendência de valorização no decorrer do tempo, principalmente quando se investem em ativos que apresentam risco maior, como ações e imóveis, quando comparados com a renda fixa.

5. Rendimento de juros. Não se enganem: milhas não rendem juros. Elas funcionam como uma moeda de consumo, mas não de investimento. É impossível você transferir 10 mil pontos para o Tudo Azul, e, no final de 1 ano, você ter 11 mil pontos. Com o dinheiro a coisa funciona de forma diametralmente oposta: é 100% possível que, transferindo 10 mil reais para sua conta do Tesouro Direto, e aplicando tal quantia numa LFT, você receba, ao final de 1 ano, 11 mil reais (ou mais, dependendo da taxa SELIC). Dinheiro cria dinheiro. Milhas não criam milhas: só servem para serem gastas. Vou além: só são úteis se forem gastas.

6. Modificabilidade das regras. Cada empresa que estabelece um sistema de recompensas baseado em pontos ou milhas tem total liberdade para fazer o que quiser com essa moeda virtual: aumentar o valor de resgate, dificultar o acúmulo, restringir a quantidade de empresas parceiras, bloquear a emissão de voos com milhas para determinadas datas, e até mesmo extinguir o programa de recompensas. A propriedade das milhas é da empresa, e não de você, tanto é assim que, se você morrer, os pontos morrem junto. O dinheiro não tem nenhuma das restrições acima. É você quem decide o que quer fazer com o dinheiro, e não a TAM, Gol, TAP etc.

7. Valor em si mesmo (valor intrínseco). As milhas e pontos não têm valor em si mesmos: só passam a ter alguma utilidade a partir do momento em que são convertidos em passagens. Dizer para alguém que você tem 300 mil milhas em sua conta de fidelidade é o mesmo que dizer que você tem R$ 0,00. Ou seja, nada. Elas só adquirem valor econômico no instante em que são convertidas em passagens aéreas. Sei que isso pode chocar alguns brasileiros mais “apegados” em milhas e pontos, mas é exatamente isso que observei lendo sites estrangeiros (notadamente norte-americanos) especializados em milhas e pontos. Lá fora, é uma unanimidade dizer que é um desperdício de tempo você ficar dizendo, aos quatro cantos, que tem 400 mil, 600 mil ou 700 mil milhas em sua conta de fidelidade, pois elas não valem nada, até serem resgatadas. Já o dinheiro tem um valor intrínseco, de modo que pode ser até mesmo usado em garantia de alguma obrigação.

8. Valor de aquisição/valor de utilização. Esse é um desdobramento natural do item anterior: as milhas e pontos têm somente um valor extrínseco, isto é, quando são utilizadas para resgate de passagens aéreas ou diárias de hotéis. É o bilhete aéreo ou a diária de hotel que têm valor econômico, não as milhas e pontos em si mesmas consideradas – daí a importância de você utilizá-las o quanto antes, já que elas expiram e estão sujeitas a mudanças para pior em 100% das situações. Já o dinheiro tem valor desde o momento em que é adquirido, uma vez que pode ser utilizado tanto para consumo, quanto para a produção de mais “pés de dinheiro”, por meio de investimentos.

9. Natureza. Por fim, mas não menos importante, as milhas e pontos não são “investimentos”, no sentido técnico do termo: são passivos, ou seja, produtos de consumo, com todas as limitações acima destacadas. Já o dinheiro é um ativo, ou seja, um bem capaz de fazer você ter mais desse mesmo bem (dinheiro) se aplicado nos investimentos corretos.

Puxa, então quer dizer que acumular milhas não tem nenhuma serventia?

Caaaaaalllma! Não é bem isso que quis dizer (embora realmente pareça….rs).

O objetivo dessa breve explanação é fazer com que você não perca a cabeça, e as finanças principalmente, no afã de acumular milhas e mais milhas.

Isso porque, como todo objeto de consumo, há pessoas que literalmente perdem a cabeça quando o assunto é milhas e pontos, de modo que chegam a provocar verdadeiros desastres financeiros familiares em nome da aquisição de milhas e mais milhas. São casos de pessoas que chegam a gastar de R$ 2 mil a R$ 10 mil mensais adquirindo milhas das mais diversas formas (pagamento de contas no cartão de crédito, compra de milhas diretamente de empresas como US Airways e Life Miles, gastos excessivos no cartão de crédito só para acumular “milhas em dobro” na promoção do banco “S”, pagamento de tarifas de anuidade de cartão de crédito que vão de R$ 348 a R$ 1.200,00, pagamento de cestas de serviços bancários de até R$ 95 mensais, e assim por diante).

Essas pessoas não percebem o desastre que estão causando à sua própria saúde financeira, colocando a aquisição de milhas como o item mais caro do orçamento doméstico.

As milhas são uma excelente moeda de troca, desde que adquirida da forma menos onerosa possível, e planejada para ser usada de maneira inteligente e previamente programada.

Além disso, viajantes frequentes têm, nos programas de fidelidade, diversos benefícios adicionais que maximizam o potencial de utilização das milhas, como veremos em posts futuros.

No próximo post dessa série, irei mostrar a melhor estratégia para quem pretende acumular milhas, e, na verdade, a única que funciona para 100% das pessoas que participam desse jogo das milhas e pontos.

Até mais!

8 Comments

  1. Investidor 27/05/2014 at 10:08 #

    Gostei do post Guilherme. Realmente existem pessoas que valorizam exageradamente as milhas. Muitos amigos meus, inclusive, tem seus respectivos cartões black ou infinite só para desfrutar das “vantagens” de obter pontuação maior, ignorando o fato de ter que pagar anuidades de aproximadamente R$ 800 a R$ 1200. No meu sentir, duas coisas influenciam essas pessoas, o fetiche pelo plástico preto e a “desculpa” da maior pontuação. Claro que existem as exceções que residem justamente nas pessoas que possuem gastos elevados de modo a obter a difícil (senão impossível) isenção da anuidade destes cartões.

    No mais, mais uma vez parabéns pelo post. Sou um frequentador assídio do Valores Reais e comungo de sua filosofia de vida. Também “opero” milhas, acompanho as promoções, bonus etc e, tanto quanto possível, vendo milhas também. Grande abraço!

    • Guilherme 27/05/2014 at 10:49 #

      Legal seu depoimento, Investidor!

      Seu raciocínio está perfeito: a indústria do consumo consegue “catapultar” literalmente milhões de pessoas que não tem educação financeira, e acabam sendo presas fáceis dos “sonhos de consumo” fabricados pelas empresas que atuam no setor.

      Inclusive, daqui a alguns dias escreverei um artigo que irá na contramão da indústria das viagens, na qual esse blog está inserido (mas atuando, tanto quanto possível, com equidade e a necessária distância).

      Devemos ter os olhos bem abertos e saber o que é importante e essencial para nós, e não para eles.

      Obrigado por nos prestigiar!

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