[Guest post] Como conseguir o seu cartão americano (se você realmente precisar de um!) – Parte 1

Segue mais uma excelente contribuição do Emmanuel Kalispera!

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“O novo maná dos influencers e vendedores de cursos de milha são os cartões americanos. O produto é propagandeado com o novo ouro do deserto, a solução para todos os problemas financeiros de viajantes, com cartões que ofereceriam generosos Welcome Bônus, salas vips ilimitadas, programas sensacionais de fidelidade e isenção de custos de transação no exterior, salvando o bolso dos milheiros pela não cobrança de IOF e outras tarifas comuns no Brasil.

Mas será que é isso mesmo? Eu tenho um cartão americano há um bom tempo e posso dizer que a maior parte desse “marketing digital” é falacioso (surpresa!).

Os cartões americanos podem servir para viajantes que realmente têm grandes desembolsos no exterior ou que têm alguma relação mais forte com os Estados Unidos, mas não é essa coisa toda. Para a maioria das pessoas simplesmente, não vale a pena correr atrás disso.

Em primeiro lugar, a propalada vantagem financeira é bem ilusória, pois é muito, muito menor do que a anunciada. Isso porque a maioria dos brasileiros só vai conseguir cartões da bandeira Amex, que não é muito exigente em relação a não se ter um SSN ou ITIN, ou equivalente ao CPF brasileiro, que não é um documento fácil de se conseguir para viajantes eventuais.

O AMEX oferece realmente uma gama de excelentes cartões de crédito próprios, como o TPC, o Amex Gold e Green, além de ter parceiros excelentes como o Hilton e a Delta, com excelentes perks para frequent travelers. Mas cobra taxa que varia de 1% a 2% nas transações no exterior; se adicionarmos a isso a taxa de 2 a 3% (com o IOF de 1.1%) para mandar o dinheiro para uma conta americana (sim, você precisará de uma), podemos ter algo em torno de 5% que é um custo pequeno, mas da mesma magnitude dos cartões brasileiros sem o IOF. Portanto, a vantagem é bem pequena para um viajante eventual. Isso sem contar com os altíssimos custos de anuidade, que podem chegar a 700 dólares anuais, que falarei a seguir.

Em segundo lugar, os cartões americanos pontuam bem menos que os brasileiros. Lá eles têm uma estratégia de dar pontuação diferenciada de acordo com o tipo de cartão e o tipo de estabelecimento, alguns podem oferecer 2, 3 ou até 5 pontos por dólar em restaurantes, supermercado ou gasolina, mas você terá que escolher um que combine com seu perfil. Fora desses gastos, a pontuação base é de 1 ponto por dólar, mesmo nos cartões mais caros e luxuosos. Ou seja, você economiza de um lado e perde de outro, ganhando menos milhas.

Em terceiro lugar, poucos cartões oferecem salas vips ilimitadas, como vemos aqui no Brasil. O AMEX TPC oferece o PriorityPass ilimitado, mas o Hilton Amex, por exemplo, oferece apenas para o titular; os Gold ofecerem mediante pagamento e o Green não tem nada.

Ou seja, é difícil estabelecer uma estratégia que funcione para tudo. Adicione-se a isso o fato de que os cartões americanos têm anuidades realmente altas e que são cobradas de uma única vez na primeira fatura, bem diferente do que temos no Brasil. Um Amex TPC cobraria de cara quase 700 dólares na primeira fatura, não há política de isenção por gastos e não há choro (apenas muito excepcionalmente) para isentar o cartão. Portanto, de cara você terá que analisar se esse custo elevado poderá ser compensado com a redução dos custos do IOF, o que cada vez parece menos provável, já que ano a ano o tributo vem sendo reduzido e deve ser zerado em 2028, aqui no Brasil.

A única vantagem realmente considerável dos cartões americanos, são os generosos Welcome Bônus, o que torna os clientes lá menos fiéis, pois ano a ano eles vão trocando de cartão para receber esse bônus. Mas não é de graça, você precisa gastar um volume razoável num período pré-determinado. Por exemplo, no TPC, após 5000 dólares gastos em 3 meses, você pode receber 100.000 pontos de Welcome Bonus que você pode transferir para a American Airlines, por exemplo, o que dão belas viagens e tem um valor bem relevante (essa oferta varia muito, mas geralmente é um x valor gasto em um y período para ganhar z milhas).

Mas para isso, você teria o custo de 700 dólares + os custos das transações no exterior para os 5000 dólares. Aí, a ideia é que no segundo ano você cancele e troque por outro cartão para pegar outro Welcome Bônus, e por aí. É uma tarefa bem chatinha, diga-se, mas pode compensar.

No próximo post falarei como consegui meu cartão americano e, na verdade, foi bem simples, dá um trabalhinho, mas nada de outro mundo. O principal mesmo é avaliar se ele vale a pena e faz sentido dentro de sua estratégia de viagens. Como eu disse acima, para a grande maioria das pessoas (e dos nossos leitores do MMM), creio que não faz sentido.

Conclusão

Em resumo, enquanto os cartões americanos possam parecer a chave dourada para viagens internacionais com menos custos e mais benefícios, a realidade pode ser bem diferente para a maioria dos viajantes brasileiros.

Antes de se aventurar na busca por um desses cartões, é crucial avaliar cuidadosamente se os benefícios realmente superam os custos e se alinham com suas necessidades de viagem. No próximo post, desvendarei o processo que utilizei para adquirir meu próprio cartão americano. Aí vocês verão que além do custo financeiro, você terá outros custos, como tempo, paciência, além de ter que ter uma conta americana para criar histórico e pagar o cartão.

No fim, é um investimento relativamente grande. Fique ligado para descobrir se essa é uma estratégia que pode ser benéfica para você, e como você pode maximizar suas vantagens sem cair em armadilhas comuns.

E o que você acha disso?”