[Guest post] Como pagar pelas despesas em viagens internacionais: moeda em espécie, cartão de crédito ou contas internacionais?

Com o cenário de viagens internacionais se tornando viável num futuro próximo, segue mais um brilhante comentário do SwineOne (a quem desde já agradecemos!) que resolvi transformar em post.

No final, transcrevo uma excelente contribuição complementar do leitor Jorge Posada – a quem também agradecemos pela disponibilização de informações adicionais que enriquecem o debate.

Boa leitura!

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Pessoal, esperamos que em breve possamos voltar a fazer viagens internacionais, e com isso, vem a questão de como pagar pelas despesas no exterior. Estive pensando sobre isso, e quero pontuar algumas questões, que espero serem úteis para os colegas. Guilherme: se achar que seria interessante uma visibilidade maior, transformando em guest post, fique à vontade.

Comprar moeda em espécie ou usar o cartão de crédito

Não posso falar por todo mundo, mas nas minhas viagens mais recentes ao exterior (no meu caso, a última foi há 3 anos), sempre preferi adquirir moeda estrangeira em espécie, em função do IOF de 6,38% no cartão de crédito e spread escorchante praticado pelos bancões.

Desde então, há muitas ofertas de cartões com spread zero, em especial de cooperativas e o PDA. Agora estou tanto com o cartão Uniprime como o PDA, então agora é uma alternativa ao meu alcance.

Consultando uma grande corretora hoje (Confidence), para a minha cidade, o custo do dólar, incluindo IOF de 1,1%, é de R$ 5,53, contra R$ 5,27 do dólar PTAX cobrado pelos cartões sem spread. Trata-se de uma diferença de quase 5%, um tanto próxima dos 6,38% de IOF. É uma diferença pequena o suficiente para considerar seriamente o uso do cartão, em face dos inconvenientes do dinheiro: risco de andar com dinheiro vivo, custos de trocar de volta para reais em caso de sobra, etc. Mas, além disso, ainda tem a questão dos pontos do cartão.

Vamos considerar o caso do PDA, e para simplificar as contas, vou considerar a transferência para Smiles e depois ALL. Esse é o piso do retorno do cartão, mas claro, pode haver oportunidades melhores em emissões. Para cada R$ 100 gasto no PDA, considerando um bônus típico de 80% e a conversão de 1 ponto PDA para 0,88 milhas Smiles, obtém-se 158,4 milhas Smiles. Estas viram 31,7 pontos Accor, equivalentes a € 0,634. Pela cotação atual, trata-se de pouco mais de R$ 4, o que pode ser pensando como um cashback de 4% sobre as despesa.

Agora o jogo virou: pode-se pensar que o custo é só de 2,38% no cartão de crédito após o cashback, e portanto 2,6% mais barato que levar dinheiro em espécie. Ou seja: o PDA é o novo benchmark a ser batido.

Para efeito de comparação, vou fazer o mesmo cálculo com o cartão Uniprime. Ele acumula 2,2 pontos/dólar na Livelo. Gastando R$ 100 neste cartão hoje, o que equivale a US$ 19, a pontuação obtida serão 41,8 pontos Livelo. É melhor transferir diretamente da Livelo para o ALL com a paridade de 2,5:1, obtendo-se assim 16,7 pontos Accor, equivalentes a € 0,334. Pela cotação atual, estamos falando de R$ 2,14, ou seja, um cashback de 2,14%. Pode-se pensar que o custo é de 4,24%, e portanto ainda assim menor que os 5% de comprar moeda em espécie — especificamente, uma vantagem de 0,76%.

Alternativa: contas internacionais

Outra alternativa recente são as contas internacionais, como dos bancos BS2, C6 e Nomad.

Pesquisando a respeito, o spread de todas as 3 contas é de 2%, além do IOF de 1,1%, totalizando 3,1%. Só aí já está atrás do PDA. Fora isso, o Nomad só funciona nos EUA, e o BS2, pelo que lembro de ter lido, cobra 2% adicionais para compras em outras moedas, como euro.

Há outras tarifas, mas vou desconsiderá-las:

-Tarifas pagas uma única vez, como abertura de conta, pois são amortizados ao longo de diversas viagens;
-O C6 cobra taxa de inatividade, mas entendo que deve ser fácil de evitar: qualquer coisa é só comprar um chiclete na padaria da esquina com o cartão;
-Tarifa de saque de US$ 5 + taxas do ATM em todos os bancos, mas não prefiro nem pensar quanto custa fazer um saque com cartão de crédito.

No meu caso, poderia vislumbrar uma utilidade para uma conta dessas para sacar algum dinheiro durante a viagem, pois é irresponsabilidade total andar só com cartões. O valor que cada um julga prudente levar varia muito em função de uma série de fatores, mas vou escolher um valor aqui para efeito de cálculo: US$ 500.

Para fazer um saque de US$ 500, já haverá um custo extra de 1% em função da tarifa de saque de US$ 5, portanto o custo já sobe para 4,1%. Mesmo assumindo um ATM sem tarifa, considero que isso é próximo demais do custo de 5% de adquirir a moeda em espécie. Se o ATM cobrar mais US$ 5 para sacar, já fica mais caro. Além disso, considero que há uma certa tranquilidade em já sair do Brasil com dinheiro na mão, para o caso de qualquer imprevisto. Somado à próxima questão que vou abordar, penso que, pelo menos na minha situação, não vejo utilidade nestas contas digitais.

Como “fazer preço médio” (hedge cambial)

Um grande risco do cartão de crédito é que você está sujeito à cotação na data da sua viagem, que evidentemente é imprevisível. De repente você começou a orçar um valor para viajar, e se viu diante de aumentos consideráveis da cotação (como os quase 50% registrados entre o final de 2019 e o pico em maio/2020).

Como uma pessoa muito conservadora, isso me incomoda bastante, e a despeito do custo mais barato do cartão de crédito na presente situação, poderia me fazer desistir de utilizá-lo. Por outro lado, uma grande vantagem de adquirir a moeda em espécie é que é possível “fazer preço médio”, adquirindo uma fração do que vai gastar na viagem a cada mês. Também poderia-se fazer o mesmo com as contas internacionais — pelo menos se você confiar em deixar seu saldo lá, considerando que não há cobertura do FGC.

Vejo, portanto, que é interessante investigar maneiras de “fazer preço médio” com o cartão de crédito, ou seja, como fazer hedge cambial.

Uma alternativa simples que vejo é o investimento em fundos cambiais. Por exemplo, a XP oferece o Trend Dólar FI Cambial (de corretoras, só opero com a XP; se alguém souber de uma alternativa mais barata em outra corretora, faça a gentileza de informar).

Vamos então analisar os custos envolvidos. A taxa de administração é 0,5%/ano. A porcentagem exata dessa taxa que incidirá irá depender do horizonte de compra, lembrando que ela incide sobre o patrimônio só daquele mês, que vai crescendo com o tempo — em outras palavras, se você investir a mesma quantia todo mês ao longo de um ano, você só vai pagar em média 0,25% sobre o valor total investido. Vou adotar esse valor de 0,25%, admitindo que um período de um ano seja razoável. Portanto, só aí temos custos extras de 0,25%, fazendo a vantagem do PDA cair para 2,35%, e da Uniprime para 0,5%.

A próxima questão é a tributação sobre os ganhos com o fundo. Se, de fato, o dólar se valorizar, você precisará pagar de 22,5% a 15% de imposto sobre o ganho de capital — já se o dólar cair, o “sócio” (o estado paquiderme) evidentemente se furtará de te ajudar com o prejuízo. Admitindo o mesmo horizonte de um ano, a alíquota média de imposto seria de 20%, mas lembrando, só sobre a variação cambial e não sobre o patrimônio. Sendo assim, é necessário estimar uma variação média do dólar ao longo de um ano. Na falta de ferramentas melhores, vou tirar um número de 10% da cartola. Portanto, a alíquota de 20% sobre esta variação de 10% resultaria em um custo extra de 2%, praticamente zerando a vantagem do PDA, e deixando a Uniprime no negativo, especificamente 1,5%. Porém, lembrando que essa variação depende de um número que foi totalmente tirado da cartola.

Outra alternativa seriam os mini-contratos de dólar na B3. Não conheço nada sobre o assunto, então agradeço os comentários dos colegas que tiverem experiência com isso, em especial com a forma de tributação.

Mas o maior problema que vejo é que um mini-contrato equivale a US$ 10.000, o que, imagino, seja um valor um tanto alto para uma boa parcela dos viajantes, especialmente no caso de passagens pagas com milhas, e mais ainda se as hospedagens forem pagas com pontos também. Com isso, você acaba se alavancando para além do necessário. Em que pese a tendência a longo prazo do real se desvalorizar, ainda assim você corre um risco e poderá ser chamado a cobri-lo (talvez até precisando descontar do seu orçamento de viagem).

Deixo então minha opinião: a menos que você realmente pretenda gastar US$ 10.000, ou se a sua estratégia de investimentos contemplar uma certa exposição ao dólar, eu acho que seria preferível ter um custo um pouco maior, mas conhecido de antemão, com um fundo cambial.

Conclusão

Contanto que as condições atuais se mantenham (cartões com spread zero, valores de IOF no cartão e na compra de moeda em espécie, spreads das casas de câmbio, paridade para envio ao ALL, etc.), fazer as compras internacionais no cartão de crédito é bastante competitivo com a compra de moedas em espécie, ou até mesmo melhor, no caso do PDA. Na minha opinião, isto, aliado aos fatores não-financeiros (principalmente, risco de guardar moeda em espécie em casa e depois de levar na viagem, além da facilidade de usar o cartão) fazem com que o cartão de crédito seja a melhor escolha”.

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O leitor Jorge Posada complementou:

“Minha pequena contribuição: entendi que você considerou abrir contas na Nomad, no BS2 e no C6. No entanto, há outras opções melhores.

Caso você tenha capacidade de investir USD 25 mil, é possível abrir uma conta na Charles Schwab (uma das maiores corretoras americanas) sem sair do Brasil. Além das vantagens de investir sem qualquer taxa direto nos EUA (o que recomendo fortemente), eles enviam para o Brasil um cartão de débito internacional Visa e um talão de cheques (ou mais, caso a sua conta seja conjunta). O cartão de débito é simplesmente sensacional, sem qualquer foreign fee (usam praticamente a cotação do Google) para compras e saques e ainda devolve diversas taxas cobradas pelos ATMs. Também é possível incluí-lo no Google/Samsung/Apple Pay. O envio dos reais para a conta pode ser feito via Wise, Remessa Online, Western Union etc.

Caso você tenha um endereço nos EUA ou na UE, considere também a conta multimoeda da Wise. É possível enviar dinheiro (GBP, USD, EUR etc.) aos poucos para a conta sem sair do Brasil. Depois, quando estiver fora do país, basta mudar seu endereço e pedir o cartão de débito internacional. O mesmo cartão de débito funciona com todos os saldos (ele abate sempre do saldo com a menor taxa). Também é possível incluí-lo no Google/Apple Pay.

Caso possua cidadania europeia, também é possível considerar opções como o N26, o Revolut etc.

Em todas essas opções, o spread ficará bem abaixo dos 6,38% de IOF e, além disso, há algumas vantagens adicionais: (i) possibilidade de comprar a moeda estrangeira aos poucos (dollar cost average / hedge); (ii) segurança do cartão (vs. espécie); (iii) diversificação de riscos, já que vc terá um cartão de outro país; (iv) possibilidade de saques a baixo custo ou custo zero; (v) criação de reserva em moeda estrangeira; (vi) em alguns casos, possibilidade de fazer investimentos em moeda forte com menor impacto tributário”.

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E você, como está se preparando para as futuras viagens internacionais: com moeda em espécie, contas internacionais ou vai manter o uso do cartão de crédito?