[Guest post] Precisamos falar sobre os blogs e os influencers “de milhas” de 2024.

Segue mais uma excelente contribuição do Emmanuel Kalispera!

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“Lembro-me de quando, desesperado com um filtro de água que precisava de substituição, encontrei a solução em um vídeo no YouTube. Um usuário simpático explicava como trocar o refil e resetar o indicador. Era um exemplo claro da internet como uma comunidade de partilha livre, onde o conhecimento fluía desimpedido e genuíno.

Esse ethos de ajuda mútua era também o fundamento dos blogs de viagens nos primeiros dias da internet, quando eram simplesmente espaços onde viajantes compartilhavam experiências e dicas, ajudando outros a evitar armadilhas comuns em terras estranhas.

Contudo, essa era de inocência e autenticidade nos blogs de viagens se viu comprometida à medida que crescia a oportunidade de monetização desses espaços. Parcerias com programas de milhas e companhias aéreas começaram a surgir, inserindo uma camada de complexidade e conflito de interesses.

Por exemplo, era comum que blogs populares de viagem, como o “Viajante Esperto” e o “Mochileiros de Luxo”, começassem a apresentar conteúdos patrocinados que recomendavam certas companhias aéreas ou apresentavam um ranking indicado de cartões de crédito associados a programas de milhas, muitas vezes sem a transparência devida.

Esses posts frequentemente destacavam “promoções” que mais serviam aos interesses comerciais do que às necessidades reais dos leitores e criavam “desejo” dos consumidores nos cartões da “moda” que remuneravam os blogs com a divulgação.

Além disso, alguns blogs passaram a organizar seus conteúdos em torno de ‘dicas exclusivas’ disponibilizadas por meio de cursos pagos ou grupos privados no WhatsApp, prometendo revelar segredos de como acumular milhas ou conseguir upgrades de forma quase mágica. Esta prática criou um ambiente onde a informação, antes livre e disponível, passou a ser uma mercadoria vendida ao maior lance, distanciando-se do ideal original de compartilhamento aberto e honesto de conhecimentos e experiências de viagem.

Assim, começaram a pipocar escândalos aqui e ali, como blogs financiados com pirâmides financeiras de milhas e/ou outros como contratos assinados com companhias aéreas guardados a sete chaves: as relações antes transparentes entre conteúdo e leitor foram se emaranhando em acordos lucrativos, mas eticamente questionáveis.

A verdade é que com a decadência dos programas de milhagem (e das companhias aéreas), muitos blogs se viram na tentadora posição de monetizar seu conteúdo de maneiras que, por vezes, comprometem a imparcialidade e a verdade. A integridade editorial começou a ser ofuscada por parcerias onde o conteúdo “recomendado” não necessariamente reflete as melhores opções para o leitor, mas sim as mais rentáveis para os operadores do blog.

E agora estamos chegando a um novo momento marcante: não só a informação foi privatizada em grupos de whatsapp, como agora há indícios claríssimos que nem assim os viajantes conseguem os seus objetivos, emitir as viagens com milhas, pois os grupos pagos agora também são parte do patrocínio implícito e explícito de companhias aéreas à beira do colapso.

Eu explico: o que vocês preferem, uma emissão para o Chile, voando Latam, no programa da Iberia gastando 10.000 Avios, ou fazer a mesma emissão diretamente pela companhia chilena por 11.000 pontos? Obviamente, a segunda opção é vantajosa, mas só parece assim pela comparação direta nesse caso específico.

No entanto, na maioria esmagadora dos casos, as emissões pelas companhias estrangeiras com Iberia ou American Airlines é vantajosa, mas os blogs financiados só apresentam “promoções” em que Latam/Smiles/Azul e Livelo apresentam alguma vantagem pelo marketing da comparação.

Assim, o zap do blog não te envia as promoções para te ajudar, mas sim, para atender ao seu patrocinador, para você considerar que continuar assinando clubes, tendo cartões duvidosos e enviando pontos para essas companhias ainda é um “ótimo negócio”. O que eles te escondem é que esses casos são pontuais e exceções que eles meticulosamente procuraram para te manipular e satisfazer o patrocinador.

Flying Blue por 100 mil pontos para Europa ou 110 mil pontos pela Smiles onde é muito mais fácil acumular? Claro que você vai preferir o laranja.

52.500 pontos pela American Airlines, onde o acúmulo é lento, ou 70.000 pela Azul onde eu posso assinar um clube, fazer um cabalacho com a livelo e clicar no link patrocinado do blog? Azul. E assim o blog vai te manipulando, agora no zap, com dicas imperdíveis e faturando nas suas costas.

Eu lembro de uma época em que o carro desejado do momento era o Corolla, então todas as revistas especializadas comparavam qualquer coisa que andasse com o carro japonês, criticando o design “sisudo”, “antiquado” etc., da Toyota. Só não te contavam que o carro japonês era resistente, tinha um excelente mercado secundário para revenda, etc.

O objetivo era vender o carro que patrocinava a revista, manipulando o consumidor que desejava um Corolla, mas que não tinha condições para comprar um japonês. Na época eu lembro que até o Astra, carro de categoria inferior, entrou na disputa com o Corolla, e a revista dizia “economize 10.000 e vá viajar com o carro da Chevrolet!”. E quem se esquece da “melhor escolha”?

O editorial das milhas segue no mesmo rumo da manipulação, ainda mais descarada. Assim, autenticidade e a confiança, outrora pilares dos blogs de viagens, estão em franca decadência. Houve um que era muito famoso na década passada por oferecer passagens aéreas a preços promocionais e depois caiu em descrédito por se associar a 123milhas.

No entanto, há outros que estão no mesmo caminho de queimar sua credibilidade, dia após dia. O que era para ser uma plataforma de troca livre de informações transformou-se em um veículo para manipulação sutil de expectativas e comportamentos dos consumidores.

Assim, estamos diante dos seguintes problemas-chave:

Valorização Exagerada de Programas Nacionais

Muitos blogs de viagens começaram a apresentar os programas de milhagem de companhias aéreas nacionais como superiores aos internacionais. Esta valorização muitas vezes ignora a realidade de que, em muitos casos, programas internacionais oferecem melhores taxas de conversão e opções de resgate mais vantajosas.

A promoção incessante de programas nacionais pode levar consumidores a tomar decisões subótimas, baseando-se em informações tendenciosas, pelo marketing da comparação.

Promoções e Ofertas Manipuladas

As promoções destacadas frequentemente não representam as melhores opções disponíveis no mercado, mas sim aquelas que alinham-se com os interesses dos patrocinadores dos blogs.

Por exemplo, uma “oferta” para voar com uma companhia específica pode ser destacada, enquanto outras opções mais econômicas ou convenientes são omitidas ou subvalorizadas.

Comparação Enganosa

Alguns blogs utilizam comparações diretas que não refletem a realidade cotidiana dos programas de milhas. Eles podem destacar uma situação particularmente favorável para uma companhia aérea nacional em detrimento de uma estrangeira, mesmo que, na maioria das vezes, a opção estrangeira seja mais vantajosa.

Isso pode induzir os leitores a acreditarem que sempre terão melhores ofertas com os programas nacionais (incluo aqui nas nacionais o TAPA na cara de Portugal, pois é tipicamente uma empresa ‘nacional’, financiadora de blogs), o que não é necessariamente verdade.

Conflito de Interesses

A integridade dos conselhos dados em blogs é comprometida quando os conteúdos são patrocinados por companhias aéreas ou programas de milhas, sem que isso seja claramente indicado aos leitores.

Isso pode resultar em uma visão distorcida dos benefícios reais desses programas, onde os conselhos servem mais para promover interesses específicos do que para ajudar o consumidor a fazer escolhas informadas.

Privatização da Informação

Com o surgimento de grupos de WhatsApp pagos e cursos especializados em milhagem, as informações que poderiam beneficiar todos os consumidores tornam-se exclusivas para aqueles dispostos a pagar.

Isso cria uma barreira ao acesso à informação e pode levar a uma compreensão fragmentada e incompleta dos programas de milhas.

Falsa Escassez e Urgência

Outra técnica utilizada é a criação de uma sensação de escassez ou de uma oportunidade limitada, pressionando os consumidores a agirem rapidamente sem avaliar completamente outras opções. Isso pode levar à decisão precipitada de transferir pontos ou comprar milhas sem uma análise criteriosa.

É bom lembrar, que isso não afeta só aqueles que pagam os grupos e são enganados pela publicidade, mas todo o sistema em questão acaba se corrompendo e fragmentado, prejudicando o viajante comum que não participa desses ‘esquemas’.

Conclusão

Desse modo, a necessidade de vigilância por parte dos leitores nunca foi tão crítica. É imperativo questionar, verificar fontes e, acima de tudo, buscar alternativas que mantenham a integridade que os blogs de viagens prometiam no início.

E você, o que acha disso aí?”

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