[Guest post] Existem gurus de milhas que querem te convencer que usar milhas aéreas é um bom negócio. No entanto, com alguns cálculos, dá para ver que não é bem assim…

Segue o excelente texto, rico em reflexões sobre esse mundo das milhas e pontos, elaborado pelo Emmanuel Kalispera:

“Existem gurus de milhas que querem convencer aos viajantes que usar milhas aéreas é um bom negócio. No entanto, com alguns cálculos, dá para ver que não é bem assim.

Por exemplo, é vendida como um grande oferta voos do Brasil para os EUA usando o programa da American Airlines, por 20,000 milhas Aadvantage por perna. No entanto, não é falado que essas datas são muito específicas – geralmente em baixa temporada ou para cidades menos disputadas naquela época, como Miami em maio ou NY em pleno inverno.

Além disso, para pegar essa “promoção”, você teria que ter o cartão Black da American Airlines, e gastar ao menos 20.000 dólares para uma “round-trip”, o que equivale a 120.000 reais em um ano. No entanto, se você tem esse volume de gastos, você poderia ter um cartão de cashback de 1% e receber 1.200 de volta.

Além disso, deixaria de pagar a anuidade do AA Black que custa 1.200 reais também. E deveria colocar na conta mais uns 500-600 reais dos grupos de Whatsapp que você tem que participar para receber essas incríveis “promoções”.

No final, fica o mesmo preço da passagem comprada em dinheiro, que na data de hoje, é possível encontrar na faixa de 3.000 para essas datas menos procuradas. E sem o trabalho e a dor-de-cabeça de acompanhar esses grupos e perder tempo com isso. Mesmo que se ache alguma coisa, o tempo que você perde com isso poderia ser investido em outra coisa mais produtiva.

Assim, criei dois personagens caricatos e pitorescos: “o ferão das milhas” e “o otário do cashback” usando os dados para comparar os custos de cada um em cada situação, apresentando os prós e contras de cada situação e ao final concluindo.

O Ferão das Milhas

Veste-se sempre com camisas estampadas de aviões e bonés de companhias aéreas. Orgulhoso de suas habilidades em acumular milhas, sempre tem uma história para contar sobre como conseguiu “a pechincha do ano” com suas milhas.

Metodologia: Usa exclusivamente o cartão Black da American Airlines, acumulando 120.000 reais em gastos anuais para garantir suas 20.000 milhas por perna para voar para os EUA.

Custos: Paga 1.200 reais de anuidade do cartão e cerca de 500 a 600 reais em taxas de serviços de grupos de WhatsApp que oferecem dicas de acúmulo de milhas.

Benefícios: Consegue voos para destinos menos disputados durante a baixa temporada por um número reduzido de milhas.

O Otário do Cashback

Vestindo trajes mais conservadores e sempre com um tablet em mãos para verificar suas finanças. Cético quanto a “esquemas” de milhas, prefere a simplicidade e o retorno garantido do cashback.

Metodologia: Gasta os mesmos 120.000 reais anualmente, mas em um cartão que oferece 1% de cashback.

Custos: Economiza na anuidade do cartão, que é nula ou significativamente menor do que o cartão de milhas, e não paga por serviços adicionais de grupos.

Benefícios: Recebe 1.200 reais de volta a cada ano e não precisa se preocupar com a disponibilidade de voos ou com a temporada para viajar.

Comparação

Vantagens do Ferão das Milhas

Potencial para economizar em passagens durante promoções de milhas, ideal para quem é flexível com datas e destinos.

Sensação de “ganho” ao utilizar as milhas para passagens que poderiam ser mais caras em alta temporada.

Desvantagens do Ferão das Milhas

Custos fixos altos devido à anuidade do cartão e taxas de serviços de grupos.

Necessidade de gastos elevados para acumular milhas suficientes para a viagem desejada.

Limitação de datas e destinos, com disponibilidade frequentemente na baixa temporada.

Vantagens do Otário do Cashback

Retorno financeiro garantido e imediato com o cashback.

Maior liberdade na escolha de datas e destinos para viagens, pois não está atrelado à disponibilidade de voos em promoção.

Menor complexidade e tempo investido na gestão de benefícios.

Desvantagens do Otário do Cashback

Possivelmente maior custo total de viagem se não houver promoções relevantes de passagens.

Menor sensação de “fazer um bom negócio” que pode vir com o uso estratégico de milhas.

Conclusão

Ao avaliar a utilização de milhas aéreas em comparação com um programa de cashback, percebe-se que, financeiramente, os resultados são bastante similares, embora com nuances importantes que influenciam a decisão final.

O uso de milhas, promovido pelos chamados “gurus das milhas”, pode parecer atraente à primeira vista, especialmente durante promoções pontuais que exigem flexibilidade de datas e destinos. Contudo, os custos ocultos associados—como a alta anuidade do cartão de crédito específico, os gastos mínimos requeridos para acumular milhas suficientes, e até mesmo taxas para acessar grupos de dicas—podem mitigar esses benefícios.

Por outro lado, o uso de um cartão de cashback oferece um retorno garantido e menos condicionado, proporcionando ao usuário maior liberdade em escolher quando e para onde viajar. Além disso, a simplicidade e a previsibilidade do cashback reduzem a necessidade de um planejamento meticuloso e a dependência de condições de mercado favoráveis para maximizar os benefícios.

Em termos práticos, a diferença entre os custos de uma viagem usando milhas e o valor que seria obtido via cashback, considerando os mesmos gastos anuais, tende a ser marginal. Portanto, para a maioria dos consumidores, a utilização de um programa de cashback pode se revelar mais vantajosa a longo prazo, principalmente quando se considera o tempo investido. Tempo este que poderia ser aplicado em atividades mais produtivas ou rentáveis, sugerindo que, na balança geral, o “otário do cashback” pode, na verdade, estar fazendo uma escolha mais inteligente e benéfica financeiramente.

Lembrando que todos os cálculos acima se aplicam para apenas um viajante. Quando expandimos a análise para incluir viagens familiares, as complexidades e desafios de usar milhas se intensificam consideravelmente, de modo que podemos concluir que é virtualmente impossível usar milhas de maneira mais econômica do uma emissão tradicional usando cashback.

Para uma família planejar uma viagem usando milhas aéreas, seria necessário um volume de gastos significativamente mais alto para acumular milhas suficientes para todos os membros. Isso pode incluir não apenas as passagens, mas também a cobertura das taxas de alta temporada e as limitações de disponibilidade, que se tornam ainda mais restritivas quando se trata de múltiplos bilhetes.

Comparativamente, o sistema de cashback continua a oferecer uma vantagem clara. Com um retorno percentual garantido sobre os gastos, famílias podem acumular benefícios de forma mais previsível e com menos restrições.

Esse retorno pode então ser aplicado diretamente para cobrir custos de viagem ou outras necessidades, sem a necessidade de se preocupar com a disponibilidade de voos ou datas específicas. Além disso, o cashback oferece a flexibilidade de ser usado para qualquer tipo de despesa, o que é especialmente útil para famílias que precisam gerenciar orçamentos mais diversificados.

Avaliando ambas as abordagens, percebe-se que, embora os gurus das milhas possam apresentar suas estratégias como infalíveis e altamente vantajosas, na realidade, a linha entre um bom negócio e um investimento de tempo e recursos pouco proveitoso é tênue. Frequentemente, as supostas vantagens das milhas aéreas são eclipsadas pelos custos e condições ocultos que acompanham essas promoções.

Portanto, antes de seguir o conselho desses especialistas, é essencial considerar se o brilho das milhas não está, de fato, ofuscando uma opção mais simples e garantida como o cashback, que tende a oferecer um retorno mais claro e sem surpresas. Assim, pode ser que a verdadeira viagem valiosa seja aquela que nos conduz para longe dos encantos ilusórios dos gurus das milhas e em direção a uma gestão financeira mais transparente.

E nunca se esqueça: não existe almoço grátis, os gurus são apenas vendedores disfarçados.”

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