2021: o ano em que os programas de milhagens aéreas podem piorar *MUITO*

No âmbito da economia, já se convencionou falar que ela vive de ciclos – os ciclos econômicos, que vão dos vales aos topos, das crises às épocas de bonança.

Transportando esse raciocínio para o mundo das milhas e pontos, é inegável lembrar uma das valiosas lições que leitores mais antigos devem ter aprendido do Aquela Passagem: em momentos de crise, as empresas aéreas de repente “descobrem” os programas de milhagens aéreas, tornando-a um chamariz para a retenção e tentativa de fidelização de clientes.

Porém, em momentos de euforia e bonança econômica, essas mesmas empresas tratam de jogar para escanteio os programas de milhagens, modificando para pior suas regras – afinal, é hora de diminuir o passivo das milhas e pontos para elas (empresas).

O ano de 2020 foi caracterizado por ser o pior ano de todos os tempos para todas as empresas aéreas de todo o mundo. Muitas, inclusive, quebraram, outras entraram em recuperação judicial (incluindo uma certa empresa brasileira… ou quase isso), e a maioria ainda está com problemas financeiros graves.

Por conta disso, elas “se lembraram” da existência de programas de fidelidade, e resolveram lançar promoções a rodo para esse setor, ao longo do ano de 2020.

No Brasil, vimos coisas que antes pareciam inimagináveis: Latam Pass dando bônus de transferência acima de 100% e dando 7 pontos por dólar no seu cartão co-branded; Smiles atribuindo o valor de R$ 250 para cada bloco de 10 mil milhas nos resgates por crédito de combustível; Tudo Azul vendendo pontos através da assinatura de seu clube por cerca de R$ 150 o bloco de 10 mil pontos etc.

Porém, o cenário que se desenha para 2021 é de recuperação econômica, e, com isso, a retomada da normalidade – ou, no linguajar que já virou comum, do “novo normal”.

Com isso, as viagens voltarão ao “normal”, e a ocupação dos aviões também voltará ao normal, com mais pessoas querendo usar, consequentemente, suas milhas e pontos, e usufruir dos benefícios dos programas de milhagens. O que isso significará?

Piora generalizada nos programas de milhagens.

A história tem nos mostrado que a coisa sempre funciona assim: quando as coisas vão mal, as empresas tratam de tentar melhorar as regras de seus programas de fidelidade; quando as coisas vão bem, o jogo se inverte.

Particularmente isso foi visível nos últimos anos, principalmente de 2017 pra 2019, onde pudemos ver uma piora significativa dos programas de milhagens.

E existe ainda outro fator agravante disso tudo, que é o inflacionamento dos resgates.

Os programas de milhagens – assim como estão fazendo os Bancos Centrais do mundo inteiro com suas respectivas unidades monetárias (dinheiro) – estão imprimindo sem parar milhas e pontos em seus sistemas. E a consequência da maior oferta no mercado de determinado bem é uma só: a depreciação do valor do próprio bem.

Quando você aumenta, por exemplo, a oferta de um produto, como maçã, sem um correspondente aumento da demanda, a tendência é o preço desse bem diminuir. Maior oferta => menor preço.

Quando você, ou melhor, o Banco Central, decide aumentar a oferta do produto chamado “dinheiro” no mercado, a tendência é o preço desse bem – dinheiro – diminuir. A desvalorização do dinheiro implica o reverso aumento de preço dos demais bens que podem ser comprados com dinheiro: e é por isso que estamos vivenciando um perigoso aumento de inflação em preços de produtos e serviços (alimentos, imóveis etc.). Mais gente com dinheiro na mão tende a inflacionar os preços das coisas que podem ser comprados com dinheiro. É o choque da demanda.

Da mesma forma, quando as empresas de milhagens aumentam a oferta do produto “milhas e pontos” no mercado, a tendência é o preço desse bem – milhas e pontos – diminuir, sendo necessário comprar mais desse bens para a troca por outros produtos, que são (principalmente) as passagens aéreas. E é justamente e precisamente por isso que os preços dos resgates em milhas aumentam: porque há um inflacionamento da base monetária das milhas e pontos. Há mais gente com mais milhas e pontos na mão, querendo trocá-las por outros bens e serviços.

E esse problema vai estourar em 2021, já que o processo de fabricação de milhas e pontos foi muito incentivado nesse ano de 2020 pelas empresas aéreas e programas de milhagens. O que vai haver, então, é uma piora significativa nas regras e meios de acúmulos e resgates de pontos e milhas.

Dito tudo isso em outras palavras: os sistemas inerentes aos programas de milhas e pontos estão ficando cada vez mais frágeis.

Conclusão

O ano mal começou e já estamos vivenciando esse problema na prática, com a notícia que publicamos durante esse semana (post aqui).

O Smiles não está a fim de carregar o passivo das milhas geradas com passagens promocionais pagas em dinheiro, e resolveu da melhor forma (para eles) esse problema: tais passagens não mais acumularão milhas. Ótimo para a empresa, que fica com um passivo menor para carregar; mas péssimo para o consumidor, que fica de mãos atadas e sem poder acumular milhas nas passagens promocionais pagas em dinheiro.

Só há uma hipótese de as regras dos programas de fidelidade aérea não piorarem demais nesse ano de 2021, que seria no caso de a pandemia se prolongar e o setor de turismo continuar rastejando.

Porém, tudo indica que, com as vacinas, haverá um aquecimento na indústria de aviação civil e de turismo em geral, o que, por consequência, tende a fazer com que a caixinha de maldades dos programas de milhagens aéreas seja aberta nesse ano de 2021, com pioras substanciais para os consumidores.

O que fazer, então, diante de um cenário ruim que se projeta?

Agir de modo inteligente, seja fazendo compras racionais e planejadas de viagens, aproveitando as oportunidades enquanto elas estiverem disponíveis; seja gastando as milhas e pontos de outra forma, para quem ainda não se sentir seguro em viajar.

Uma coisa é certa: é preciso estar muito atento à dinâmica do mundo das milhas e pontos, para não comprar gato por lebre, já que a maioria das mudanças nos programas de fidelidade que veremos ao longo de 2021 – e eu diria que mais de 90% das mudanças – serão para pior, e algumas serão para bem pior.