[Guest post] Contabilizando pontos e milhas em aplicativos de finanças pessoais – Parte 1: escolha do app, precificação do valor dos pontos, e ajustes no câmbio ao longo do tempo

Um dos grandes desafios de todos aqueles que se enveredam pelo mundo das milhas e pontos é sistematizar mecanismos de controle aptos a lhe darem as melhores soluções possíveis para o uso dos pontos.

Pensando nisso, o leitor SwineOne nos apresenta como ele sistematizou o método de contabilidade das milhas e pontos em aplicativos de finanças pessoais, em um espetacular giga post.

O colossal texto está dividido em vários guest posts setoriais, que serão publicados ao longo das próximas semanas, a fim de os leitores absorverem cada informação da melhor maneira possível.

Boa leitura!

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Introdução

Uma das melhores decisões que já tomei foi contabilizar todas as minhas movimentações financeiras em um aplicativo de finanças pessoais, o que comecei a fazer há quase 10 anos (em 31/12/2010) e continuo fazendo ininterruptamente desde então. Hoje, você poderia pegar o dinheiro na minha carteira a qualquer momento e contar até o último centavo, e o valor coincidiria exatamente com aquele registrado no aplicativo. O mesmo vale para minha conta corrente, cartões de crédito, etc.

No início, é mais natural registrar o dinheiro em espécie, saldos de contas correntes e cartões de crédito. Com o tempo e a prática, é possível desenvolver técnicas para registrar todo tipo de ativo ou passivo com valor monetário:

  • Investimentos (fundos, CDBs, ações, ETFs, FIIs, títulos do tesouro direto, FGTS, PGBL, etc.)
  • Empréstimos, consórcios, financiamentos, etc.
  • Saldos em carteiras digitais, aplicativos de pagamento de pedágio, etc.
  • Ativos (imóveis, carros, e mesmo bens de um certo valor que você troca com alguma frequência: computadores, celulares, etc.)
  • Pontos e milhas de programas de fidelidade.

Esta última categoria será o foco deste texto.

Escolha de um aplicativo

Caso você já não tenha um aplicativo para acompanhamento de suas movimentações, o primeiro passo é a escolha de um. Há muitas opções no mercado, e não tenho a intenção de listar exaustivamente estas opções, até porque fazem muitos anos desde que avaliei os aplicativos disponíveis no mercado, quando do falecimento do desenvolvedor do aplicativo que usava na época, chamado PocketMoney, em 2013. Naquele momento, após muita pesquisa, escolhi outro aplicativo que tenho usado desde então, e não acompanhei a evolução das alternativas existentes, e nem os novos lançamentos.

Apenas mencionarei o aplicativo que uso atualmente, chamado Banktivity. Seu principal problema, para muitos usuários, é a disponibilidade exclusiva em plataformas Apple (iOS e macOS), mas certamente existem alternativas disponíveis para outras plataformas com recursos similares. Em particular, me lembro de outro aplicativo que considerei seriamente para substituir o PocketMoney, chamado MoneyWiz, embora este tivesse algumas restrições na época que acabaram me impedindo de adotá-lo.

O texto pretende ter um caráter prático para ilustração do sistema de contabilidade de pontos que emprego, então as operações serão ilustradas usando o Banktivity. Cabe a cada um adaptá-lo para o software de sua preferência.

Definição do valor dos pontos e milhas em cada programa

Uma das questões mais cruciais é atribuir um valor monetário a um ponto ou milha – uma espécie de câmbio entre uma moeda real (que pode ser real, dólar, euro, ou outras) e os pontos ou milhas do programa.

Enxergo algumas metodologias para definir esse câmbio:

  • Valor: qual o valor que você extrai de um ponto ou milha em uma emissão típica? Por exemplo, em um programa como o Accor Live Limitless (ALL), isso é muito fácil: cada ponto vale exatamente €0,02. Não vou nem me atrever a fazer essa análise para programas aéreas; cabe a cada um fazê-lo de acordo com a sua realidade, caso prefira enveredar por este caminho.
  • Custo de compra: qual o custo típico de compra de um ponto ou milha? Por exemplo, se você adquire pontos Livelo principalmente através do Clube Livelo 20.000 no preço antigo (R$ 649,90), é razoável adotar um câmbio de R$ 0,032495/ponto. Se, ao invés disso, você costuma adquirir pontos com desconto de 40%, o câmbio mais adequado seria R$ 0,042/ponto. Se você adquire pontos Latam Pass via Km de Vantagens, usando o lote de 10.000 pontos mais 2.000 pontos bônus por R$ 324,90, poderia adotar o câmbio de R$ 0,027075/ponto (aqui o correto seria contabilizar os pontos do Km de Vantagens também, mas não faço isso, pois na minha visão os pontos deste programa tem valor zero).
  • Preço de venda: por quanto você consegue vender cada ponto ou milha em sites como HotMilhas, MaxMilhas, etc.?

Pessoalmente, por razões históricas (antigamente concentrava todos os meus pontos no ALL, antigo Le Club, inclusive transferindo de programas aéreos para lá, ao invés de usar para emissões de passagens), adotei a metodologia de valor para definição do câmbio dos programas, ancorada no ALL. O Banktivity permite escolher a moeda de cada conta no programa, então para os programas de fidelidade, escolho o euro, e adoto o câmbio de €0,02/ponto para o ALL. Para outros programas, desvalorizo o câmbio de acordo com a paridade de transferência – por exemplo, no TudoAzul, adoto €0,005/ponto, devido à paridade 4:1 atualmente vigente (não se sabe até quando) no programa para clientes Clube TudoAzul ou TudoAzul Itaucard (que é o meu caso).

Embora acredite que esta metodologia tenha suas vantagens (especialmente pela onipresente possibilidade de destinar pontos a expirar para o ALL), possivelmente se estivesse começando do zero hoje, adotaria a metodologia de custo de compra para alguns programas, como Livelo e os programas aéreos. No caso dos programas aéreos, pode ser interessante atrelar ao valor de um ponto Livelo, desvalorizado por um bônus de transferência típico que cada um deverá apurar (por exemplo, algo como 80% para o Smiles e TudoAzul parece razoável).

Ajuste do câmbio ao longo do tempo

Periodicamente, as premissas que permitiram definir um câmbio para um determinado programa podem se alterar. Há vários exemplos:

  • Metodologia de valor: se você ancora o valor dos pontos de um programa aérea à ALL, mas a paridade de transferência deste programa para o ALL mudou (como ocorreu recentemente com a Latam e Smiles), será necessário um ajuste.
  • Metodologia de custo de compra: reajuste de preços dos clubes de pontos, ou a mudança de perfil de bônus de transferências (como ocorreu com o virtual desaparecimento de bônus de transferência do Santander para outros programas).
  • Metodologia de preço de venda: esta deve ser mais evidente – a cada pesquisa nos sites de venda, o valor oferecido pode ser diferente.

Posteriormente, será mostrado um exemplo de como realizar este ajuste no Banktivity.

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O próximo capítulo será dedicado à criação de contas. Não percam!