[Insight] Janelas de oportunidade podem se abrir em breve no mundo das milhas e pontos

Inicialmente, registro meus agradecimentos pelas dezenas de coment?rios escritos a respeito do post de ontem, em que alertei a necessidade de uma reflex?o sobre custos financeiros e riscos ? sa?de associados ?s viagens ao exterior, em fun??o da alta generalizada das moedas estrangeiras em face do real, e tamb?m da confus?o que existe sobre os reais impactos do coronav?rus sobre os viajantes.

Destaco, a prop?sito, o coment?rio do F?bio:

Hoje, eu preciso abordar outro tema fortemente correlacionado aos eventos acima.

Ainda n?o se sabe ao certo quais ser?o os impactos futuros do coronav?rus sobre a economia global, mas os mercados financeiros j? est?o precificando um futuro sombrio, com as a??es das empresas ligadas ao setor a?reo e de turismo (CVC, Gol, Azul etc.) sofrendo fortes baixas nesses ?ltimos tempos.

N?o sabemos, tamb?m, se uma recess?o em escala global est? prestes a acontecer, ou se j? entramos, ainda que levemente, num estado de crise econ?mica mundial.

De qualquer forma, vale a pena resgatar alguns princ?pios econ?micos ligados especificamente ao mundo das milhas e pontos.

O milheiro raiz que se preze deve se lembrar que o Rodrigo Purish escrevia, l? no Aquela Passagem, e h? mais de uma d?cada, que havia um princ?pio econ?mico especificamente aplic?vel ao mundo das milhas e pontos.

Esse princ?pio pode ser traduzido na seguinte ideia: s?o nos momentos de crise que as empresas a?reas voltam a “se lembrar” dos programas de fidelidade.

Nos anos que se seguiram ? recess?o global de 2008, tivemos, aqui no Brasil, a ?poca de ouro para fabrica??o de milhas e pontos, com Pague Contas abundante e a custo praticamente zero, transfer?ncias da Multiplus para o Accor Le Club com paridade absoluta, d?lar a R$ 1,65, Amex Membership Rewards com um zilh?o de parceiros a?reos etc.

Mais recentemente, ? medida que a economia brasileira – e mundial – foi se recuperado, come?amos a testemunhar um forte decl?nio de benef?cios para viajantes frequentes, tanto aqui no Brasil quanto no resto do mundo. Cart?es de cr?dito cada vez piores, b?nus de transfer?ncias p?fios, resgates limitad?ssimos e com raros assentos dispon?veis, cortes de benef?cios etc.

Como eu disse, n?o sabemos ao certo se haver? uma nova recess?o mundial a curto prazo, mas, caso ela se concretize, podem ter a certeza que um dos primeiros gastos que o cidad?o m?dio vai cortar de seu or?amento dom?stico consiste nos gastos com viagens e cart?es de cr?dito, ou seja, com lazer. Afinal, haver? outras prioridades a serem satisfeitas em primeiro lugar, principalmente num quadro de desemprego, redu??o de sal?rios, adiamento de promo??es na carreira, suspens?o de aumento de sal?rios ou corte de benef?cios.

Com as empresas a?reas e do setor de turismo e cart?es de cr?dito vendo o faturamento diminuir por conta da redu??o dos gastos das fam?lias com esses itens, o que elas ser?o obrigadas a fazer?

Sim: realizar promo??es “de verdade”, melhorar disponibilidade de assentos, incluir benef?cios em cart?es de cr?dito, b?nus, e adicionar atrativos para seus produtos e servi?os.

Ou seja, elas voltar?o a “se lembrar” que existem programas de milhagens e de fidelidade.

Algumas coisas podem acontecer:

  • A pr?pria disponibilidade de assentos para resgates com milhas e pontos de repente pode melhorar. Isso j? est? ocorrendo para certos programas de fidelidade em algumas rotas espec?ficas (p.ex,, o British Airways Executive Club soltou recentemente v?rios assentos para resgates com Avios para Maldivas e Austr?lia, em datas limitadas), e pode se generalizar para v?rios programas mundiais em diversas rotas e itiner?rios;
  • As empresas administradoras de cart?es de cr?dito podem dar uma virada e passarem a adicionar benef?cios, em vez de exclu?-los, como, por exemplo, adicionar acessos gratuitos a salas VIP, melhorar condi??es de isen??o de anuidade, dar mais b?nus de ades?o, fazer mais campanhas promocionais de ac?mulos extras de pontos etc.;
  • As cias. a?reas podem fazer promo??es mais agressivas de pre?os em certas rotas, mais convidativas do que as usuais – lembremo-nos, por exemplo, daquela crise de 2015/2016, onde era poss?vel encontrar passagens para os EUA em classe executiva para a Costa Oeste (S?o Francisco) por m?dicos R$ 3,5k (post aqui). N?o estou falando de bug ou de erro tarif?rio, mas sim de tarifas promocionais publicadas e divulgadas amplamente;
  • B?nus de transfer?ncias dos cart?es de cr?dito para os programas de milhagens podem ter seus percentuais aumentados, dada a dificuldade atual para o brasileiro comum acumular altas quantias de pontos em compras a cr?dito no cart?o, em face da galopada do d?lar. Aqui eu aposto, caso a crise econ?mica se materialize, na volta dos b?nus de 100% para o Smiles, por exemplo.

Enfim, esses s?o apenas alguns exemplos. Outros podem ocorrer, e que escapam ? minha imagina??o nesse momento.

? claro, n?o estou falando de promo??es que surgir?o semana que vem para voc? viajar m?s que vem. Eu falo de um contexto de horizonte temporal mais largo, que pressup?e a viv?ncia de uma crise econ?mica j? instalada, seja ela local, seja ela mundial.

Imaginando o que pode ocorrer daqui pra frente, d? pra cogitar de um cen?rio futuro com a epidemia de coronav?rus sob controle, mas num contexto econ?mico de crise global, com melhoras not?cias no mundo das milhas e pontos ocorrendo, por exemplo, no final de 2020, ou come?o de 2021, para voc? aproveitar e viajar entre o final de 2020 e o come?o de 2022. At? l? o c?mbio pode j? ter sossegado, e as preocupa??es com o coronav?rus estarem diminuindo. Se voc? tiver dinheiro em caixa, pode ser uma oportunidade para fabricar mais pontos para realizar mais sonhos. 😉

Por outro lado, tamb?m pode ser tamb?m que n?o haja crise econ?mica alguma nos pr?ximos anos, e a? as promo??es ser?o “mais do mesmo” daquelas que j? nos acostumamos a presenciar no dia a dia.

Mas ? importante ficar de olho, pois o “circuit breaker” no setor de turismo tem dura??o mais prolongada em termos de aproveitar as oportunidades.

Conclus?o

Embora o post de hoje possa ser aparentemente contradit?rio com o de ontem, ele n?o ?.

Trata-se apenas de uma observa??o daquilo que pode vir a acontecer, caso determinadas premissas relacionadas ? eclos?o de uma poss?vel crise econ?mica em escala planet?ria se materializem.

Em ?pocas de crise, as cias. a?reas se “lembram” dos seus programas de milhagens, e os utilizam como uma isca para gerar receita com a venda de seus produtos e servi?os.

Em ?pocas de bonan?a, as cias. a?reas “deixam pra l?” seus programas de milhagens, ficando o consumidor ? merc? da sorte. Talvez o exemplo da American Airlines seja paradigm?tico dessa situa??o: quando quase faliu, usou o AAdvantage para atrair consumidores ? sua base de clientes. Depois, ? medida que a situa??o econ?mica da empresa foi melhorando, a AA foi, na mesma e inversa medida, piorando seu programa de fidelidade.

Fiquemos atentos, pois, que eventuais janelas de oportunidades podem se abrir para quem tiver sa?de, tempo e, obviamente, dinheiro para aproveitar essa virada de jogo e as chances em termos de pontos e milhas que elas podem trazer, a fim de proporcionar viagens mais acess?veis e com melhores condi??es. 😉